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« Memória Empresarial • ANO XXVIII - Ed. 2 (05/06/1987)

Transparência Garante Credibilidade

O Estado brasileiro costuma levar toda a culpa de ser centralizador e intervencionista, mas nem sempre a iniciativa privada comporta-se de maneira diferente. O mercado de capitais é um bom exemplo. Imitando o poder central, muitas empresas encobrem suas estruturas administrativas, dificultam a análise e o acompanhamento das decisões e atendem de maneira muito limitada os interesses dos seus acionistas. É por isso que existe uma pressão para que as empresas de capital aberto adotem uma gestão transparente, em que esses vícios sejam definitivamente abolidos.
Sintomaticamente, a empresa que decide mudar de comportamento está sendo valorizada por acionistas, analistas de mercado e interessados no fortalecimento dos negócios com ações. A White Martins, por exemplo, recebeu o Prêmio Mauá de 1986, atraindo 65% dos votos dos 20 mil eleitores convocados pela Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Célebre pela estabilidade dos seus papéis - tanto, que é conhecida como a empresa dos cardíacos, por não provocar sustos -, ela remunera os acionistas a cada três meses, tem uma política de bom relacionamento com o mercado e procura atingir a transparência na elaboração dos balanços.
Para falar sobre essa estratégia bem-sucedida, convocamos Júlio César Cassano, diretor de Relações com o Mercado da White Martins.

SATISFAZENDO OS INVESTIDORES

"A empresa foi fundada em 1912, com o nome de S. McLauchlan, e, em 1921, quando mudou de nome em função da nova composição societária, abriu seu capital, que era majoritariamente nacional. Em 1957, passou a ser controlada pela multinacional Union Carbide, que elevou sua participação para 50,14% das ações. Do restante do capital, composto exclusivamente por ações ordinárias, cerca de 35% está nas mãos de 17 mil acionistas, 10% com familiares do grupo dos fundadores e a fatia menor com investidores institucionais.
A base acionária começou a se expandir a partir de 1960, quando introduziu, pioneiramente, a prática de 'splits' (desdobramento de ações). Esse é um método que protege os acionistas, pois, embora os desdobramentos sejam feitos para equivaler proporcionalmente ao valor das ações no mercado, o efeito psicológico do aumento de papéis acaba reajustando os preços com ganhos.
Essa expansão obrigou a empresa a tornar-se aberta de fato e não só de direito e, dessa forma, dar contrapartida aos investidores. Cientes de que não poderíamos continuar voltados para nosso próprio interior, colocamos em prática uma política de maior transparência na administração. Estabelecemos uma área de atendimento direto ao acionista e adotamos nas assembléias um sistema de pausas flexíveis - que permite a discussão de assuntos gerais de interesse dos investidores."

CERCO AOS INSIDERS
"No âmbito externo, abrimos contatos com a imprensa e os analistas de mercado de capitais e passamos a publicar balanços e demonstrações financeiras com a objetividade e a simplicidade necessárias ao entendimento do investidor leigo. Mas a parte que o mercado recebeu com mais entusiasmo na nossa política de transparência foi a publicação de balancetes mensais, que dá todo o tipo de informações - inclusive as negativas - sobre nossa situação, desempenho e perspectivas.
A freqüência das informações desperta o interesse de novos investidores. Para os acionistas, ajuda a quebrar a burocracia interna e elimina a demora da tomada de decisões, facilitando, além disso, a integração do corpo de funcionários aos objetivos propostos. Mas é natural que toda essa estratégia inclua alguns riscos, como o uso de informações privilegiadas em benefício próprio, típica dos insiders.
Para evitar isso, criamos um mecanismo de proteção: todo funcionário que transita no âmbito das informações privilegiadas é obrigado a informar anualmente, para a Diretoria de Relações com o Mercado, sua posição em ações e intenções de investimento ou desinvestimento para aquele período. Pode não ser um processo perfeito, mas pelo menos inibe a ação dos insiders."

LUCROS PARA O ACIONISTA

"A política de distribuição de dividendos contribui, decisivamente, para que as ações da empresa não sofram da síndrome da oscilação brusca. Segundo a máxima do nosso presidente, todo lucro da White Martins que sobrar das aplicações em planos de expansão será pago aos acionistas. Mantendo projetos de investimento, a empresa distribuiu 45% dos seus lucros em 1984, 54% em 1985 e 65% em 1986. Até 1986, a distribuição era por semestre, mas, a partir de 1987, ela começou a ser trimestral.
Essa é mais uma forma de a empresa reconhecer a confiança que os seus pequenos sócios depositaram nela. A fatia dos acionistas está preservada, inclusive, da necessidade de cobrir as dívidas da empresa. Em 1986, por exemplo, se distribuíssemos 45% dos lucros, teríamos condições de zerar as dívidas do período.
Mas abrir capital é mais do que distribuir dividendos. Principalmente, é pensar no processo de relacionamento que a empresa terá com seus acionistas. É por respeitar a interferência dos acionistas nos rumos da empresa que ela só mantém em seu controle as ações ordinárias, pois não vemos vantagem para o investidor na introdução de ações preferenciais.
Acredito que o mercado de capitais é instrumento para alavancar a economia. Infelizmente, tem muita empresa aberta que faz uma política antimercado de capitais. No Brasil, o acionista ainda não sabe e não exige seus direitos."


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