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« Memória Empresarial • ANO XXVIII - Ed. 39 (28/12/1992)

Barro, Matéria-Prima do Lucro

Casa de tijolo ainda é luxo no Brasil. Mas, tradicionalmente, o mercado costumava manter com boa lucratividade centenas de empresas de cerâmica, concentradas em regiões com fartas jazidas de argila. Com a recessão, esse setor da economia está sendo pressionado a mudar de mentalidade, pois antigos empreendimentos familiares correm o risco de ser sucateados junto com suas estruturas. Agora, segundo Alcides Peixoto Jr., diretor das Cerâmicas Brasil e Sete, em Itu, e presidente da associação regional do setor, a crise colocou no forno assuntos como marketing, tecnologia e associativismo.
Com 30 anos de idade, ele faz parte de uma geração de empresários que conquistou a confiança dos fundadores, revolucionando, com muita cautela, alguns hábitos e velhos conceitos. "As dificuldades fizeram brotar uma vontade grande de nos amoldarmos à nova situação", diz o engenheiro civil Alcides, que indica o corte dos financiamentos na construção civil como a principal causa dos problemas atuais.
Ao falar com exclusividade para esta seção, ele explica alguns lances desse processo, que promete, a médio prazo, mexer radicalmente com um segmento básico da economia, que tem grande repercussão social. Por gerar empregos diretos e indiretos e ser responsável pela área construída - residencial e profissional - do País, a indústria de cerâmica não pode dar-se ao luxo de trabalhar abaixo da sua capacidade produtiva.

TIJOLO BAIANO PRECISA DE NORMAS TÉCNICAS?

"A Dona Maria que compra nosso material tem que aprender a pedir, para que a indústria seja obrigada a seguir uma padronização e obedecer as normas técnicas. Já estamos fazendo um trabalho de conscientização junto às cerâmicas e aos sindicatos de depósitos de material de construção, mas não chegamos ainda ao varejo. Acontece, às vezes, que o tijolo baiano, por exemplo, o mais consumido, não tem uma resistência mínima, e isso já está mudando.
Descobrimos que estávamos omissos no mercado, pois outros produtos tomaram o lugar do nosso material. A falta de padronização aprofundava o problema. Era comum encontrar blocos com cinqüenta medidas diferentes, dificultando o trabalho do construtor, que começava a obra de um jeito e não tinha como continuar."


TECNOLOGIA ESCLARECE HÁBITOS ANTIGOS

"Todos nós herdamos procedimentos passados de geração em geração, mas ninguém sabia por que eles funcionavam. Com nossa aproximação com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), estamos, agora, aprimorando nossa tecnologia. Montamos um laboratório para análise dos produtos através de um convênio entre o IPT e a Associação de Cerâmicas Vermelhas de Itu e Região, a Acervir, o que nos dá condições de fornecer um laudo técnico para as construtoras.
Na Acervir, estamos treinando uma equipe de vendas para oferecer um produto diferenciado. Desenvolvemos melhorias num bloco com medidas padronizadas, para reduzir o desperdício através de modulações prévias nas dimensões, o que facilita a instalação hidráulica ou elétrica."

MINERADORAS, INSTRUMENTOS DO ASSOCIATIVISMO

"Setenta por cento dos produtos dependem da argila. Estamos unindo forças para montar mineradoras que atendam entre quinze e vinte cerâmicas cada uma, através da conjugação de equipamentos e exploração mais racional da matéria-prima. Comprar jazidas e fazer o beneficiamento dependem de muitos recursos, e isso só pode ser levantado através do associativismo e de convênios com a prefeitura e a Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia.
Se houver um acompanhamento técnico na extração e conservação de matéria-prima, teremos um produto final de melhor qualidade a um custo mais baixo, pois vamos diminuir o número de carregadoras, por exemplo. À medida que começarem a surgir os resultados, será possível desfazer-se de equipamentos ociosos e reinvestir lucros na própria mineradora."

O QUE FAZER QUANDO O GOVERNO SE RETIRA

"Costumamos trocar experiências e informações com outras regiões produtoras. Em algumas delas, boa parte da sua produção estava destinada para obras populares, com financiamento do governo. Mas, desde agosto de 1991, o setor de construção civil praticamente parou. Eles ficaram sem saber o que fazer.
Uma das iniciativas foi montar uma associação de reflorestamento, com um viveiro de mudas bem organizado, que é reconhecido pelos órgãos governamentais. Em vez de pagar para o Ibama, o empresário paga para uma associação específica, onde é possível ter um controle maior. Eles trabalham diretamente com pequenos proprietários de terras que, através de um acompanhamento técnico, fazem o reflorestamento, aumentando a oferta. Essa experiência está sendo repassada para nós, que, em troca, levamos para eles o laboratório de cerâmica."

E SE A CONCORRÊNCIA FOR PARA VALER? -

"Não exportamos, porque os padrões internacionais exigem uma qualidade melhor. Nosso produto é inferior, e boa parte da culpa é nossa: investimos pouco na sua valorização e, por isso, não colhemos os resultados. Mas já estamos a caminho e poderemos colher, no futuro, o que já estamos semeando.
Se algum grupo estrangeiro resolver investir neste setor, ele não vai ter retorno imediato do investimento. Existe um exemplo de uma empresa que investiu pesado para conseguir um produto impecável diferenciado, mas ele sofre demais com a concorrência das pequenas empresas. O mercado precisa reciclar-se: muitas regiões atravessam com sucesso, vendendo produtos de pior qualidade.
Uma cidade de Minas Gerais coloca telhas a custo baixíssimo aqui em São Paulo, porque na região existe um reflorestamento abundante, além da utilização de uma grande parte de funcionários menores de idade. Para entrarmos em Minas, temos uma pauta fiscal rigorosa, mas, para eles virem para cá, acontece o contrário. No Paraná, a alíquota do ICMS para a indústria cerâmica caiu de 17 para 7%, prejudicando a produção, principalmente de Ourinhos, que fornecia para lá e tem que pagar mais imposto em São Paulo."

CERMICA ABSORVE MÃO-DE-OBRA DESQUALIFICADA -
"Nosso setor costuma servir detrampolim para o emigrante do campo, que, por ser mão-de-obra de qualificação zero, consegue empregar-se com um treinamento básico, mas abandona a empresa logo que consegue vaga em outro lugar. O resultado é a alta rotatividade.
Tradicionalmente, as empresas de cerâmica cuidavam apenas do sustento dos patrões e alguns agregados, todos tratados como uma grande família. Isso mudou nos últimos anos, com a profissionalização e maior cuidado com a mão-de-obra. Hoje, é dada assistência médica e, em algumas empresas, vale-transporte e cesta básica. Na parte administrativa, temos alguns exemplos de funcionários de nível superior, mas isso também está evoluindo."


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