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« Memória Empresarial • ANO XXVIII - Ed. 73 (29/08/1993)

Uma Experiência não Perecível

Para quem não é do ramo, abrir um negócio é um mergulho no Brasil real. Não é fácil trabalhar sem rede de apoio - um emprego -, colocando em prática os sonhos pessoais e vinculando a sobrevivência a decisões diárias. Para a orientadora educacional Míriam de Almeida Garcia, 37 anos, e sua irmã Marisa de Almeida Scolari, 35, o fator fundamental para dar esse salto no escuro foi optar por uma estratégia diferenciada. E também ter muita fé no trabalho e coragem para investir num empreendimento, mesmo convivendo com as ameaças de uma economia instável.
O primeiro impulso dessas duas donas-de-casa foi trabalhar com alimentos, setor que conhecem bem, já que, como diz Míriam, esse era o seu "universo doméstico e, além disso, comida dá dinheiro". Ela, inclusive, tinha feito chocolate caseiro, mas os objetivos eram mais prosaicos, já que o pequeno lucro obtido foi investido num freezer e em outras necessidades eletrônicas. Descartando, por motivos pessoais, empreendimentos ligados à sua especialidade, a pedagogia, ela pediu orientação ao SEBRAE/SP.
A decisão, então, foi montar alguma coisa limpa e que não lidasse com produtos perecíveis. Uma videolocadora, apesar de ser também uma solução muito comum, apresentou algumas vantagens. Nesse tipo de negócio, é possível estabelecer diferenciais importantes, já que os hábitos do segmento estão excessivamente cristalizados.
Quem, senão uma dona-de-casa, lembraria de inventar um "estacionamento infantil" dentro de uma locadora que funcionasse quase como uma creche? Quem, senão um empresário principiante, teria a disposição de explicar os motivos da eventual lentidão no atendimento com o máximo de franqueza e transparência? Esse tipo de iniciativa está mexendo com a clientela da Videolocadora Handy, no bairro da Mooca, zona leste de São Paulo, e preocupando a concorrência, como conta Míriam neste depoimento exclusivo.

LONGE DO MERCADO FINANCEIRO

"Inauguramos a locadora no último dia 4 de julho, dia em que se comemora a Independência americana e também marca a nossa independência. A escolha da data foi estratégica, para aproveitar as férias escolares, quando o gerenciamento doméstico fica mais tranqüilo. Não tínhamos nenhuma experiência empresarial, nem meu marido, que é professor de cursinho, nem meu cunhado, que é advogado. Ambos são empregados.
Por saber a importância do papel das mães na educação, resolvi dedicar-me ao meu filho, mas, quando chegou aos 10 anos, senti que ele não precisava tanto de mim. Senti também necessidade de criar uma alternativa de renda familiar. Infelizmente, no Brasil, como pedagoga, eu não teria a oportunidade de me desenvolver. Fiz supervisão de ensino em empresas e percebi que, por ser mulher e ter filho, não encontraria oportunidade de fazer carreira. Existe um estigma de que a mulher, quando dona-de-casa, não pode trabalhar e, portanto, não tem chance de ser reconhecida profissionalmente.
Resolvemos montar um negócio porque tínhamos um capital equivalente a US$ 23 mil e dispomos de um imóvel próprio. Hoje, não dá mais para ficar brincando com o dinheiro no mercado financeiro. Acredito que a cara do Brasil esteja mudando. As pessoas estão preocupadas em poupar ou utilizar seu Fundo de Garantia para realizar seus sonhos, tanto faz que seja uma loja, uma indústria ou uma banquinha de cachorro quente.
Não existe mais aquela febre consumista. Perdemos também o imediatismo. Aqui, sabemos que nosso retorno será a longo prazo. Estamos construindo o futuro para nossos filhos, que aprendem diariamente como se trabalha. Se fôssemos pensar em ganhar em pouco tempo o dobro do que investimos, como acontece no mercado financeiro, nem abriríamos um negócio."

DESCOBRINDO NOVOS ESPAÇOS
"Como não tínhamos dinheiro para investir numa pesquisa, fui pessoalmente a campo para definir onde e como montaríamos a loja. Escolhi a rua em função de ter um prédio que está prestes a ser ocupado e onde, pelo padrão da construção, deduzi que a maioria dos moradores possui videocassete. Além disso, as maiores locadoras da região não estão próximas desse local.
Resolvemos apostar nos diferenciais. Não queríamos abrir uma portinha a mais com algumas fitas nas prateleiras. Criamos um visual clean e atraente e um ambiente para as crianças jogarem videogame. Pensamos numa espécie de estacionamento infantil, enquanto as mães fazem as compras. Muitas confessaram que estão com mais tempo para colocar a casa em ordem.
Como não entregamos a decoração para uma empresa especializada, descobrimos vários segmentos de fornecedores, podendo comparar preços e obter melhores condições de pagamento. A questão da segurança também pesou muito e, por isso, montamos um esquema na loja contra roubos. Para ter maior controle do negócio e das necessidades dos clientes, informatizamos tudo."

É PRECISO INVENTAR A FREGUESIA
"Acredito na importância do comércio, em que o fundamental é saber comprar. Mas, como não temos experiência, algumas decisões são baseadas na intuição, como a escolha das fitas. Não posso pensar apenas no meu gosto pessoal, apesar de ter sido atraída para esse tipo de negócio pelo seu lado cultural, pela oportunidade de trabalhar com arte.
Tivemos que fazer concessões e trabalhar também com filmes eróticos, uma coisa que nem imaginávamos antes de entrar neste segmento. A vantagem é que filmes eróticos são muito mais baratos e não saem do catálogo, mantendo constante atualidade. Montamos também um esquema de divulgação no bairro, deixando panfletos e pôsteres em vários estabelecimentos. Estamos reinvestindo os lucros na propaganda do nosso negócio.
Temos consciência de que não será nesta loja que vamos ganhar dinheiro. Pretendemos abrir filiais e queremos firmar convênios com empresas, para atrair os funcionários através de descontos especiais. Não pretendemos ficar atrás da mesa, esperando a clientela. Essa nossa postura já está incomodando as locadoras maiores, pois, aqui, o atendimento é feito diretamente por nós e não por funcionários mal treinados, como acontece normalmente. Muitas vezes, o cliente pede dicas de fitas nas locadoras e os funcionários não sabem dar essa orientação.
Outra coisa que dá certo é admitir as próprias falhas. Percebemos, por exemplo, que não precisamos comprar muitas cópias de lançamentos só para imitar os concorrentes. E, quando falhamos no atendimento, explicamos ao cliente, que valoriza cada vez mais a franqueza e a transparência. Estamos dispostas a aprender, e essa determinação em ir atrás de tudo, corrigindo erros, é que será o alicerce básico do nosso desenvolvimento."


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