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« Memória Empresarial • ANO XXVIII - Ed. 66 (11/07/1993)

Cinqüentões Dão a Volta por Cima

Ser demitido não é nada. Faz parte do jogo, principalmente numa época de transformações radicais e de recessão mundial. Pior do que perder o emprego é abandonar a profissão e aposentar-se sem ter sentido o gostinho de uma vida mais produtiva, com atividades que exijam toda a capacidade pessoal disponível. Parece ser esse um dos problemas mais graves do Brasil, país que costuma incluir na sua cota de desperdício o descarte de mão-de-obra especializada acima dos 45 anos.
Foi esse umbral que os engenheiros Alfredo Gallinucci Netto e Horácio Angel Scovenna tiveram que atravessar, a partir de dezembro de 1990, quando 27 anos de dedicação exclusiva a uma grande empresa da indústria pesada foram para o espaço. Cinqüentões, eles já tinham ultrapassado a fase de enviar currículos em busca de colocação. E, intimamente, sentiam-se machucados com o encaminhamento pouco elegante da demissão, que atingiu a maioria dos cargos de gerência.
Ao mesmo tempo, precisavam garantir a sobrevivência e também colocar em prática toda a experiência acumulada em décadas de trabalho. Foi assim que, em janeiro de 1991, criaram, em Santo André, São Paulo, a Alfa Técnica Engenharia e Representações Ltda., especializada em serviços de manutenção de motores diesel na área naval e que também atua na área industrial, cuidando de equipamentos eletromecânicos, como pontes rolantes, monovias, guinchos etc.
Neste depoimento exclusivo, Alfredo e Horácio contam sua saga, desde a primeira fatura, e como desenvolveram uma estratégia apropriada para sobreviver num mercado altamente competitivo.

PARAMOS DE CRITICAR E COMEÇAMOS A AGIR

"A empresa que nos demitiu não aceitava nossas idéias. Muitas vezes, quisemos salvá-la, apontando caminhos e batalhando em cima de soluções para evitar que ela chegasse a uma situação tão difícil. Mas não fomos ouvidos. A Alfa Técnica foi a chance de colocar em prática nossas idéias, pois não poderíamos morrer sem antes provar que tínhamos razão. Por isso, guardamos uma parte da indenização e a outra investimos, principalmente na compra de equipamentos. Só que nem imaginávamos o grau de dificuldades que enfrentaríamos a partir dessa decisão. Primeiro, não tínhamos o 'feeling' empresarial, éramos praticamente aprendizes de feiticeiros. Segundo, sofremos o boicote de pessoas com quem tivemos contato durante décadas - alguns eram clientes antigos, que perguntavam pelo currículo da empresa, não aceitando nossa longa experiência no setor. E, terceiro, caímos no erro de querer fazer de tudo.
Chegamos ao ponto de oferecer serviços gratuitos, só para poder entrar no mercado, mas em vão. Resultado: ficamos seis meses sem emitir nenhuma nota fiscal, tendo que recorrer à poupança para poder sobreviver e pagar as despesas do empreendimento. Quando estávamos quase desistindo, conseguimos dar um curso de motores diesel num estaleiro no Guarujá. A partir daí, três empresas encomendaram serviços e, apesar de estarmos sem condições ideais de atendimento, conseguimos cumprir os prazos e deslanchar."

NOSSA EQUIPE ESTÁ CHEIA DE APOSENTADOS
"Os engenheiros e técnicos que trabalham conosco possuem informações guardadas durante anos e anos, e não existe livro que substitua isso. Trabalhamos, atualmente, com 25 pessoas em média, como autônomas, e estamos estudando uma forma de participação dos lucros. Tivemos sorte, pois trouxemos ex-colegas de empresas e demos preferência para os aposentados. Eles se sentem satisfeitos por continuarem o trabalho em que se tornaram especialistas, depois de tanto tempo.
Um dos contra-sensos do Brasil é ver que o profissional tem entre 10 e 15 anos de vida útil, pois fica pronto para o mercado aos 25 anos e, depois dos 35, 40, já é considerado velho e ultrapassado. Nas viagens ao exterior, vimos pessoas entre 50 e 70 anos na ativa, sendo respeitadas. Existe também o hábito, no Primeiro Mundo, de aproveitar funcionários veteranos para conselheiros. Na meia-idade, a pessoa está estável, não tem ansiedades dos jovens, que, em geral, ainda nem possuem carro ou casa. Quando a cabeça do sujeito está funcionando como um relógio, ele é posto de lado. Realmente, não dá para entender.
Nós já estamos pegando os filhos desses aposentados e fazendo treinamento com eles, trabalhando com a segunda geração de técnicos e especialistas. Queremos, agora, entrar na manutenção de motores de navios estrangeiros, que é também um mercado difícil. Temos certeza de que vamos conseguir, pois, desde o início, fizemos a seguinte opção: a Alfa Técnica precisa ser forte, mas nós não. Vivemos hoje com um terço do valor em relação ao último salário - muitas vezes, esse terço é complementado com a aposentadoria.
Achamos que vale a pena trocar o antigo padrão de vida pela liberdade de decidir e correr riscos. Aparamos as arestas entre nós nas reuniões dos sábados, sacrificando nosso fim de semana, mas é assim que deve ser. Não temos um tostão de dívida e já conseguimos comprar terreno para a sede da empresa. Esse patrimônio que estamos construindo é o que conta. Além disso, temos sido orientados pelo SEBRAE/SP, o que nos tem garantido uma gestão empresarial de alto nível."

NEM SEMPRE O CLIENTE EXIGE QUALIDADE
"No nosso setor, existem as firmas de consultoria, as de manutenção e as de engenharia. O que nos diferencia é que fazemos o serviço completo, não segmentado. Cobrimos desde o diagnóstico, levantamento de dados, até a fase de solução, podendo chegar a projetos de melhoria. Objetivamos ser a melhor empresa brasileira de manutenção de motores diesel e pretendemos ter certificação internacional de qualidade.
Dez dias depois de concluir o atendimento, enviamos nosso relatório técnico, com todos os detalhes sobre o serviço prestado. Repassamos a informação técnica apurada, detalhada, e criamos, assim, vínculos permanentes com os clientes. A omissão desses dados, muito comun no lugar em que éramos funcionários, foi uma das coisas que conseguimos corrigir. É claro que cobramos por esse adicional, por isso não temos o melhor preço do mercado.
A informação técnica é uma arma poderosa, mas, desde os anos 70, o poder transferiu-se da produção para a área comercial e financeira, por uma questão de sobrevivência. O que decide é o preço. Existem pessoas que nem sempre têm noção do que estão comprando, e é comum gato ser confundido com lebre. Querem apenas o equipamento funcionando, não importa o custo, as condições, a segurança do pessoal envolvido. Infelizmente, essa mentalidade ainda está bastante difundida. Mas existem clientes que só aceitam nosso padrão de qualidade na área em que atuamos."


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