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« Memória Empresarial • ANO XXVIII - Ed. 64 (27/06/1993)

Engenheiros Desmontam Caixa-Preta

Quantas ferramentas existem numa fábrica? Quais as máquinas necessárias para produzir determinada peça no mínimo de tempo e custo? Qual o investimento para colocar em prática um projeto que, por enquanto, está só no papel? Aonde foi parar aquela broca?
Parece piada, mas a maioria das empresas brasileiras não sabe responder perguntas básicas de planejamento, o que se reflete diretamente no faturamento e no lucro, comprometendo empregos e dispersando recursos. Mas isso não significa que os empresários estejam indiferentes ao problema. Ao contrário: o mercado para o planejamento do processo de fabricação é tão extenso e importante que três engenheiros estão fazendo o maior sucesso, depois que decidiram montar, em São Carlos, interior do Estado de São Paulo, uma empresa especializada nesse setor básico.
Carlos Eduardo Serrano Ribeiro, Alexandre Salgado Lino de Almeida e Harold Thomaz Kerry Junior fundaram a KSR Consultoria e Sistemas para Engenharia, graças a um conjunto de condições favoráveis: apoio e incentivo do professor da USP de São Carlos, Henrique Rozenfeld, doutor em planejamento de processos e de produção; instalação da empresa no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (CINET), projeto da Fundação Parqtec São Carlos; acompanhamento do SEBRAE/SP, através de atualização e reciclagem profissional e de subsídios para acesso a feiras e eventos.
Ao desenvolverem um software adaptado a pequenas indústrias de metalmecânica, os sócios da KSR viram que tinham atingido uma ferida aberta no mercado, pois, imediatamente, grandes empresas convocaram seus serviços. Esse trabalho é esmiuçado neste depoimento exclusivo dado pelo jovem Carlos Eduardo Serrano Ribeiro, de apenas 25 anos, um empresário experiente em desmontar caixas-pretas criadas por antigos hábitos industriais.

CADA EMPRESA TEM UM PROCESSO

"Atuamos numa área restrita, numa atividade intermediária entre o projeto de um produto e o planejamento de controle da produção. Basicamente, seria transformar um desenho em planos de fabricação. Nosso trabalho é implantar um sistema para informatizar essa etapa. As pequenas empresas são muito precárias nesse setor, então procuramos formalizar e sistematizar o planejamento do processo, o que, às vezes, exige muito trabalho, pois cada fábrica tem seu próprio método.
As grandes empresas costumam ser mais preparadas, mas desenvolvem tudo no papel, através de manuscritos. Como demanda muita escrita, a tecnologia fica na cabeça dos processistas, que fazem o roteiro de fabricação segundo a experiência pessoal. O problema é que faltam padrões, cada um escreve de um jeito. Nas empresas em que já existe uma formalização, com documentos sendo emitidos, alimentando a fábrica, nós entramos para agilizar tudo e padronizar, reavaliando modelos dos formulários para ver se as informações são adequadas às necessidades.
Nosso sistema não apenas automatiza a emissão de documentos, ele tem toda uma bagagem tecnológica por trás. Para especificar uma seqüência de operações, você precisa ter todo seu ferramental levantado e cadastrado de uma maneira sistemática e organizada. Com esses padrões, pode-se otimizar os cálculos dos tempos de fabricação. Pode-se, também, localizar as melhores ferramentas para viabilizar as operações. Procuramos, então, fazer software abertos, pois cada fábrica tem uma maneira específica de agir, e é preciso atuar a favor da linguagem acumulada pela experiência."

COMPUTADOR É GARANTIA DE EMPREGO

"Temos uma flexibilidade muito grande e só forçamos uma modificação radical quando constatamos a aplicação de um conceito errado. O importante é conhecer a cultura da fábrica e implantar o básico para emitir o mínimo possível de documentos e começar a trabalhar no novo esquema. A partir daí, começamos a sentir os impactos, pois a consultoria interfere na rotina dos projetistas, dos operadores etc.
Detectamos as pessoas que oferecem resistência e as convencemos da necessidade da mudança. Para ter qualidade total, uma empresa que queira receber a certificação da ISO-9000 precisa de todos os processos documentados, com garantia de rastreabilidade. Esses documentos dispersam-se com uma facilidade muito grande, pois não existe controle nem garantias, nem mesmo para localizar as responsabilidades."

OS PERIGOS DO CÓDIGO FALANTE

"A fase inicial de otimização do planejamento do processo prepara o principal para o sucesso do sistema: o pessoal da empresa. Muita gente não entende que tecnologia não é só hardware ou software, mas uma nova postura e novos hábitos. O empresário sabe que seus métodos são obsoletos, mas não sabe por onde começar, por isso deixa tudo na mão do ferramenteiro, que faz e acontece. Há também o outro lado: tem muito dirigente patriarcal demais, interferindo na produção sem perguntar ao operador, que obedece calado.
É preciso organizar tudo, pois o planejamento do processo referencia outros níveis do planejamento estratégico. Ele dá informações como você está hoje, como pode estar no futuro, sendo possível aprimorar a produção e crescer. Um dos problemas que enfrentamos são os diferentes códigos que existem nas fábricas, até mais de um na mesma empresa. Às vezes, é impossível encontrar as ferramentas, pois elas são batizadas de diferentes formas."

EXISTE MUITA PRESSÃO SOBRE OS CONSULTORES
"Gerentes e empresários estão preocupados mais com prazos do que com qualidade e, por isso, costumam transferir muita pressão para cima da consultoria. Fazemos a implantação num prazo entre três e quatro meses. Temos acumulado muitas preocupações e estamos agora aprendendo a conviver com nossos problemas.
De uma turma de oitenta pessoas, fomos o primeiro grupo a montar uma empresa, num setor praticamente virgem. Não fosse o apoio que recebemos, seria impossível trabalhar sem nenhum recurso inicial. Acho que o fundamental para nós foi ter formatado um produto e descobrir cedo a potencialidade desse mercado. Além disso, há ambiente propício em São Carlos, uma cidade com baixo índice de analfabetismo e talvez o maior número de mestrandos e doutores per capita do País.
Já existem trabalhos excelentes de automação industrial, e sinto boa vontade entre os empresários sobre novos métodos e, por isso, o País tem chances de dar um salto significativo. As empresas estão confiando mais na universidade, e entre os estudantes está disseminando-se a idéia de trabalhar por conta própria. O importante é que haja um equilíbrio entre a pesquisa científica e a tecnologia aplicada ao mercado."


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