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« Memória Empresarial • ANO XXVIII - Ed. 86 (28/03/1993)

A Prática de Empreender o Ofício

Mecânico bom não costuma falar muito e vai logo colocando a mão na graxa. Como é o responsável pelo direito de locomoção dos proprietários de automóveis, precisa ser de confiança, passo certo para um relacionamento de amizade com o cliente. E, como a recessão não cede, aprendeu a ouvir, a fazer de sua oficina um divã das vítimas da falta de dinheiro.
Dando um jeito aqui, abrindo o jogo ali, o mecânico acaba tendo status de médico ou advogado da família. "O cliente apega-se, me dá importância, tem orgulho de me apresentar como a pessoa que cuida do seu carro", diz Élio Coelho, da Hidrauto Service Center, situada no Tatuapé, São Paulo. Ex-piloto de provas da Volkswagen, ele montou sua oficina há quinze anos, mas não está acomodado a sua situação de prestador de serviços bem-sucedido.
Aproveitando seu conhecimento profissional, ele desenvolveu o Praticar, um produto com uma bateria e um acumulador acoplados que dá mais de cinqüenta partidas no carro. Serve para a oficina e para dar socorro na rua, pois Élio sentia essa necessidade quando suas baterias de reserva sumiam ou ofereciam dificuldades para ser transportadas de um lugar para outro.
Com o Praticar - invenção brasileira pronta para ganhar o mercado -, Élio conseguiu desenvolver um produto industrial a partir de um ofício, exemplo de auto-superação, num país em que a falta de emprego é diretamente proporcional ao grande volume de trabalho. A partir dos lucros, ele pretende criar um centro automotivo modelo, para atender a crescente sofisticação tecnológica dos automóveis. No depoimento a seguir, ele fala desse sonho e das realidades que precisa enfrentar na sua luta diária de empresário, na qual, em sua opinião, é preciso coragem e coração para sobreviver.

FUI FAZENDO NA CARA DURA

"Criei o Praticar para atender minhas necessidades. Temos um espaço grande aqui, na oficina, e toda vez que eu ia dar partida num carro tinha que levar a bateria nas costas. Isso, quando encontrava uma. Resolvi, então, fazer um aparelho para evitar que levassem minhas baterias embora. Ele liga na tomada para carregar o acumulador e fica pronto para o uso. É uma coisa simples, um ovo de Colombo. Serve também para quem tem barco e gosta de navegar de vez em quando. Depois de uma temporada parado, o motor é ligado com ajuda do Praticar.
Eu não tinha condições de fazer as chapas, então mandava dobrar fora e fazia tudo, montando até mesmo as rodinhas do Praticar. Fiz cem unidades e costumo conquistar os clientes deixando o aparelho uma semana com eles. Como é inédito, ninguém acredita a princípio. Mas, depois de um tempo, é só passar lá e faturar. Está dando certo, e já estou desenvolvendo um modelo maior, especial para caminhões, que exigem uma amperagem maior.
Fui fazendo tudo na cara dura e resolvi patentear, para ninguém roubar a idéia. Hoje já tem gente querendo entrar de sócio, mas eu resolvi bancar essa sozinho, pois um dos meus sonhos é ser industrial. Não conheço mecânico rico, só com situação equilibrada, no máximo. Agora, de industrial rico está cheio."

EXISTE MUITA MALANDRAGEM EM OFICINA
"A maioria das oficinas é séria, mas existe ainda muita malandragem no meio. É fácil você enganar o cliente, que não entende do assunto. Para fazer um serviço bem feito, você precisa ter tecnologia, ferramental completo e pessoal bem treinado. As fábricas de peças dão cursos, e a gente vai atrás das informações. Mas tem gente muito limitada, que fica fazendo servicinho, levantando um dinheiro curto por mês. Isso estraga nosso setor.
Antigamente, existia muito serviço de quebra-galho. Mas, hoje, todo mundo tem carro, e os clientes sabem que precisam trocar peças e que isso não é barato. Um dos desafios é fazer o orçamento. Normalmente, o cálculo é no chute, da forma mais aproximada possível. Uma das soluções que implantei é a terceirização: só tomo conta da parte mecânica, o resto deixo com outros profissionais, que fazem o serviço e dividem o lucro.
É importante não sufocar com muitas regras as pessoas que trabalham com você. É preciso ser flexível, dar algumas regalias e delegar poderes. Tem que levar na manha. Mas, para isso, é preciso conhecer bem o ofício. Se aqui faltarem todos os funcionários, eu tenho conhecimento para fazer o serviço. Tenho notado que, nos modernos centros automotivos, o dono não é do ramo; ele fica na mão das pessoas que contrata. Se você não conhece, como vai saber que um serviço foi bem feito?
Com todo o respeito às inovações que estão surgindo, acho que existe muita empulha-ção, muita propaganda. O centro automotivo que pretendo instalar vai ser sério, um modelo de atendimento. Esse é o meu sonho. Por enquanto, os importados não estão em oficina, porque têm garantia de dois anos. Mas, aos poucos, eles vão passar para proprietários de menor poder aquisitivo e estarão fora da garantia. Nesse momento é que vão precisar de manutenção."

É DIFÍCIL COMPRAR CARRO ZERO

" Já perdi dois consórcios por causa das crises brasileiras. Quando você está faturando uma boa média, pensa em comprar um zero, mas, daí a pouco, você atrasa dois ou três meses e perde a oportunidade. Às vezes, dá saudades do tempo em que a gente era só funcionário e não tinha com o que se preocupar. Para honrar minha folha de pagamento, tenho, às vezes, que levantar empréstimos e agüentar os juros.
A realidade é que só multinacional tem tudo arrumadinho, tudo certinho. Porque, com tanta lei, é fácil achar alguma coisa irregular. Precisa, por exemplo, de forro no teto, tirar o ventilador considerado perigoso, a luz muito baixa etc. Em minha opinião, deveria haver mais incentivo para as pequenas empresas e cobrar um imposto único. O governo precisa entender a realidade. Como vamos gerar mais empregos com tanto obstáculo?
Graças ao SEBRAE/SP, que ajudou a fixar o preço para o Praticar - na base de US$ 280 -, conseguimos iniciar um novo processo em direção à industrialização. É difícil, para quem fica aqui dentro da oficina, pensar em vendas, marketing, promoções, estratégias diversas. Mas contamos com apoio firme e pretendemos deslanchar.
O mercado está difícil, mas quem presta o serviço precisa adaptar-se. Vejo que nas concessionárias existe muito profissional caro e, por isso, cobra-se mais. Mas o ideal é um atendimento de primeira, com preços razoáveis e condições acessíveis de pagamento. Para os meus clientes, costumamos abrir o jogo um com o outro e fazer tudo certinho: faço em duas ou três vezes, com cheques, calculando a média da inflação, para continuarmos vivendo. É preciso ter psicologia com as pessoas que vêm aqui deixar o carro. Nos últimos anos, o nível tanto do cliente quanto do prestador de serviço melhorou no nosso ramo."


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