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« Memória Empresarial • ANO XXVIII - Ed. 53 (11/04/1993)

Quem vai Arriscar no Ovo a metro?

É difícil acreditar, mas Petrolina, cidade pernambucana perto do Recife, produz um vinho tão bom que deslumbrou um especialista no assunto: o engenheiro-agrônomo Benoit Tarche, do Ministério da Agricultura da França. Ele ficou impressionado com a potencialidade agroindustrial dessa e de outras regiões que visitou, como o interior de São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Rio Grande do Sul, onde detectou uma série de possibilidades de parcerias entre empresários brasileiros e franceses, com condições de criar alternativas para os mais diversos empreendimentos.
Ele sentiu o interesse dos empresários ao fazer a divulgação do Programa de Cooperação Tecnológica e Industrial Internacional, um convênio entre o SEBRAE, a Confederação Nacional da Indústria e a Organização das Nações Unidas pelo Desenvolvimento Industrial (ONUDI). E descortinou um pujante conjunto de projetos em setores diversos, como café, laticínios, cana-de-açúcar, plantas nativas, frutas tropicais, embalagens, equipamentos, pecuária, biotecnologia etc.
Benoit, um apaixonado pelos trópicos - tanto que é casado com uma nordestina -, fez este depoimento exclusivo em português, com sotaque carregado, destacando que, para um programa de parcerias funcionar de verdade, "todos precisam sair ganhando" e que os velhos esquemas coloniais de relacionamento pertencem ao passado.
Além de expor algumas propostas - que incluem projetos aparentemente bizarros, como a produção de ovo a metro -, ele explica como funciona essa ponte com o setor agroindustrial da França - um dos mais avançados do mundo - e a maneira mais prática para transformar possibilidades em realidade.

EUROPEU NÃO COME UVA COM SEMENTE -
"Além do vinho tinto, a produção de uva de mesa em Petrolina também é de excelente qualidade. Mas a semente impede que ela tenha aceitação na Europa. Uma parceria com uma empresa francesa de processamento pode desenvolver uma cepa de uva que resolva o problema. No Nordeste, vamos utilizar uma planta típica da região para extrair sacarina, uma forma muito mais barata do que os processos atuais.
Em Mato Grosso, existem grandes possibilidades também com o milho e o ovo. Na França, duas empresas estão desenvolvendo um produto, que é o ovo desidratado, com 50% de umidade, que desperta grande interesse na indústria, pois se conserva na temperatura ambiente. É preciso 100 mil ovos por dia para compensar economicamente. Outro tipo de produto é o ovo reconstituído, sem casca, que pode ser comercializado a metro.
Essa é uma opção muito boa para os restaurantes, por exemplo. Já existem 'joint ventures' na China e na Índia, com fábricas funcionando. A idéia é fazer o mesmo no Brasil, pois a experiência mostrou que não funciona exportar matéria-prima para processar na Europa. A transformação, o processamento industrial, gera lucro, enquanto, às vezes, só a produção dá prejuízo."

A PROSPECÇÃO DE OPORTUNIDADES

"O objetivo do programa, que no futuro será ampliado para todos os setores, é patrocinar o trabalho conjunto entre empresas de qualquer porte. Apoiamo-nos na estrutura do SEBRAE, porque ela existe em todo o Brasil e nos permite entrar em contato com o público-alvo, pessoas que tenham abertura para o mercado internacional e queiram informações.
Faço uma conferência de duas horas sobre a organização do programa e o caminho para o empresário brasileiro atingir a parceria com a França. Cada etapa do processo tem uma apresentação especial, como, por exemplo, a identificação das oportunidades, as novidades do setor industrial, como melhorar os produtos para o mercado nacional e as possibilidades de exportação.
Mostro, então, as oportunidades de trabalho, quais são as empresas que já têm idéias para serem aproveitadas, dou informações sobre o mercado europeu e, finalmente, um exemplo do que se pode fazer em cada etapa. Imediatamente, começo a visitar algumas empresas selecionadas previamente, onde vejo o funcionamento interno e dou, eventualmente, algumas idéias, sugestões de mudanças que podem ser implantadas.
Depois de três dias para o empresário refletir, um técnico do SEBRAE leva para ele um formulário da ONUDI para identificar o tipo de empresa, a atividade técnico-econômica, o projeto necessário e o modelo de parceria. Juntado tudo isso, mais detalhes importantes, como fotos e vídeos, faz-se o encaminhamento para o SEBRAE nacional, em Brasília, e de lá para a ONUDI, na França."

A VEZ DO QUEIJO DE CABRA -
"O interesse dos empresários não tem sido só exportar, mas como melhorar as chances aqui mesmo, no mercado interno. Por exemplo, no setor muito concorrido de laticínios, existem poucos tipos de queijo. No Recife, conheci uma experiência que tenta uma diversidade maior, incluindo o queijo de cabra.
Outro exemplo de parceria possível são os cubinhos de frutas congeladas para colocar em sorvetes industriais e iogurtes. É uma coisa muito simples, mas precisa de tecnologia para fazer na forma certa, conservar etc. O empresário brasileiro desse setor quer ampliar seu leque de produção e exportar o produto acabado. Ele procura seu parceiro, a empresa francesa que possua essa tecnologia, para ter acesso a informações essenciais, quando saberá se existem afinidades entre os dois empreendimentos.
Vamos, então, organizar um encontro entre os dois empresários, e eles vão acertar-se. Aí, nosso apoio logístico afasta-se e aprofunda-se um relacionamento privado entre as duas empresas. As frutas tropicais são uma alternativa no mercado de produtos dietéticos europeu, e lá é necessária a quantidade precisa para o processamento.
No Estado de São Paulo existem ótimas oportunidades na pecuária, através do cruzamento de raças. O beneficiamento do café típico brasileiro também é outro nicho característico dessa região. Na indústria de seda, o setor no Brasil está com dificuldades de acesso ao equipamento necessário. Outros projetos são a valorização do bagaço de cana e a vinhaça, que são subutilizados por aqui e podem ser processados através da biotecnologia."

FRANCESES UNIDOS DESDE OS ANOS 30 -
"Existem no Brasil muitas microempresas que não possuem um potencial de produção. O SEBRAE deve promover a associação de todos para ser criada uma estrutura que produza qualidade de maneira homogênea e que tenha um nível de produção compatível para um tratamento com parceria.
Esse tipo de trabalho foi feito na França nos anos 30, através do desenvolvimento de cooperativas e, transcorridos sessenta anos, essa estrutura tornou-se muito forte. Trata-se de uma experiência que deve ser aproveitada para acelerar o processo, queimando etapas aqui no Brasil. Já houve contatos de grandes associações francesas com empresários brasileiros para mostrar as vantagens do sistema, que, na França, gerou um poder agrícola de grande força. O Brasil é ideal para implantar idéias desse tipo, pois sentimos entre os empresários a necessidade de valorização e uma vontade muito grande de abrir novos horizontes."


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