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« Memória Empresarial • ANO XXVIII - Ed. 191 (03/12/1995)

O que Acontece com a Pequena Indústria?

Obter respostas superficiais de centenas de entrevistados é bem menos revelador do que aprofundar o diálogo com uma só pessoa. Por exemplo: uma conversa com Edvaldo de Souza Mello, da Adah Indústria de Instrumentos Musicais Ltda. - tel.: (011) 299-4022 -, diz mais sobre a pequena indústria brasileira do que muitas pesquisas.
Ex-funcionário de uma confecção, na qual trabalhava como encarregado de estoque, ele fundou a empresa junto com outro sócio, em 1987, especializada em acessórios de metal para baterias. Reconhece que, nos primeiros anos, chegou a ganhar dinheiro para investir, mas direcionou mal seus recursos. Hoje, ele é o único proprietário e encarou a abertura comercial como um benefício até o ano passado, pois teve que aprimorar a qualidade para continuar no mercado. Só que precisou encolher, devido à política ciclotímica de estabilização do Real, pois a abertura desenfreada colocou-o diante da concorrência predatória dos produtos vindos de Taiwan, da Malásia e da Coréia do Sul. Sua produção foi reduzida em 60%, e ele teve que demitir nove dos seus quinze funcionários, além de terceirizar a parte de fundição e pintura. A seguir, ele descreve esse cenário.

AS FÁBRICAS ESTÃO FECHANDO
"Hoje, a concorrência dos estrangeiros deixou de ser benéfica, porque está chegando muito produto subfaturado. Eu não posso acusar pessoalmente ninguém, mas todos que estão no ramo sabem disso. O custo da matéria-prima, por exemplo, sai por R$ 10, mas tem produto estrangeiro que está sendo vendido aqui, no atacado, a R$ 15. Quer dizer, é impossível concorrer. O resultado é que tem muita fábrica fechando. Eu me considero um vitorioso, porque tenho até um plano, que é fazer acessórios para outros tipos de produto, além das baterias.
Como minha firma é pequena, trabalho com um maquinário todo obsoleto, só que eu consegui aprimorar a qualidade com aquilo que eu tenho. Meu produto, hoje, está no nível de qualidade do top de linha do importado. Mas o consumidor brasileiro prefere comprar o importado, porque dá mais status. Isso existe na nossa cultura.
Decidi, então, partir para uma linha mais popular, vendendo para músico amador ou mesmo músico profissional que ainda não alcançou um nível financeiro muito alto. Hoje, a durabilidade do que fabrico é a mesma do que nos anos anteriores, apenas ofereço outras opções de acabamento. Ainda tenho o material cromado, mas também faço uso da resina epóxi, que tem o mesmo nível, mas muita gente não gosta, porque a peça fica preta.
Muito produto estrangeiro usa matéria-prima do Brasil e vende para nós o produto beneficiado. Tem muita coisa vinda de fora feita com antimônio, que é uma mistura, um lixo de metal. Eu uso tudo de alumínio, que vem em lingotes, peças fundidas especificamente para o meu produto, o que garante a resistência e a durabilidade."

DISTRIBUIÇÃO ESPONTÂNEA
"Tenho um amigo que rodou a Malásia, a Coréia e Taiwan e visitou as fábricas. Numa delas, viu que era um galpãozinho de 200 metros quadrados, mas com uma produção de 5 mil baterias por mês. Ele perguntou onde estavam as máquinas. Responderam que só tinham as esteiras para montagem. Mas, logo depois, mostrou uma casa com quatro furadeiras, onde mulher, marido e seis filhos trabalhavam 24 horas por dia, revezando-se. Ganhavam por peça produzida.
Lá, o governo quer arrecadar exportando. Aqui, existem os impostos excessivos, os encargos e os sindicatos, que atrapalham muito. Já houve caso de o sindicato exigir um aumento que eu já havia dado por antecipação. Quando sobra, é preciso distribuir, mas isso não pode ser uma imposição sindical ou do governo. Aqui, demiti o encarregado e um funcionário da administração e repassei a responsabilidade para a linha de produção. Agora, não existe mais aquele argumento de não fazer determinado serviço porque não foi contratado para aquilo.
Outra vantagem que os estrangeiros têm é o ferramental. Já tive ferramenteiro que me cobrou R$ 10 mil por um trabalho, que posso conseguir na Argentina por R$ 3 mil. Aqui, ainda existe aquela mentalidade de que o empresário vai ganhar milhões com a ferramenta, então eles cobram muito caro."

MAIS SONHO DO QUE PERSPECTIVA
"No início, com os lucros que tive, cheguei a dobrar a firma, cresci 100%. Mas reinvesti mal, faltava orientação. Comprei máquina que não era adequada para mim. Hoje, eu não faria isso, seria pisar no escuro. Agora, procuro informar-me bastante para não repetir os erros. Tenho feito cursos no SEBRAE/SP. A cabeça fica atualizada, mas falta condições de colocar tudo em prática. Além dos encargos fiscais e trabalhistas, existe a falta de financiamento, e assim fica difícil vislumbrar um negócio a longo prazo. Por isso, o que eu tenho hoje é mais sonho do que perspectiva.
Existe espaço de crescimento no mercado em que atuo, pois está sendo dada muita ênfase ao ensino de música nas escolas. A Associação Brasileira de Ensino de Música (Abemúsica) fez até uma campanha sobre isso. Hoje, essa entidade está tomando outros rumos, pois quem está encabeçando tudo são os grandes fabricantes, que são importadores também. É preciso fundar, talvez, outra associação, mas o pequeno empresário não quer perder tempo fazendo reunião."


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